O dia em que o barro me moldou

No segundo dia de aula do curso de torno, o professor João me falou “Não é só você que molda o barro, o barro também molda você”.

Mas cá entre nós, mesmo ficando encantada com aquela filosofia e pensando o quanto eu queria fazer parte daquilo. Na realidade, eu não fazia a menor ideia do que ele queria dizer com aquela frase. Fiquei pensando em que formas eu poderia me transformar? O que o barro faria da minha vida?

Ao ouvir aquelas palavras, soube que aquele curso não seria somente um aprendizado sobre cerâmica, mas sim um novo tipo de arte que entraria na minha vida, mudando ela de fora pra dentro. Cheguei a essa conclusão após alguns acontecimentos em meu ateliê.
Nesse dia, já tinha estabelecido como meta diária fazer dez vasos auto irrigáveis, ter tempo para fazer mais peças e ainda pensar em mais coisas para futuros projetos. Mesmo com todo esse planejamento, não conseguia produzir. E aquele dia longo de trabalho para o qual eu tinha me programado só passava – ficar sentada pensando e tentando produzir era a única coisa que eu conseguia, mais nada saía.

Uma sensação terrível tomou conta de mim – aquela, sabe?

Sensação de estar tentando fazer algo, mas parece que nada dá certo, e que as coisas simplesmente não estavam fluindo como eu esperava.
E eu não sabia o que estava fazendo de errado. Algumas vezes nem conseguia centralizar a peça no torno. Uma ou outra saía mais ou menos, mas nenhuma ficava como eu queria. Cada vez em que eu pesava a argila, tentava entender o que poderia estar fazendo de errado. Porque as peças estavam tão ruins? Mesmo tentando de jeitos diferentes, nenhum dava certo.

Então, inevitavelmente, parei. Tenho que mudar de vida.

Parei tudo que estava fazendo e comecei a refletir.
Liguei uma música, fiz um café, refiz os desenhos, repensei na peça, e, então, percebi: eu estava errando exatamente em ser tão ansiosa, precipitada ao querer realizar todos aqueles trabalhos de uma só vez. Sabe quando você quer fazer tudo ao mesmo tempo? Pois é, para fazer cerâmica isso não funciona – pelo menos não comigo.
Para produzir, minha mente tem que estar tranquila, concentração máxima em cada movimento, pois um só deslize pode pôr tudo a perder. Percebi que aqueles anos de agência, correria e a cobrança no nível máximo, vários jobs ao mesmo tempo… Basicamente, o dia-a-dia desse cotidiano caótico tinha que ser deixado para trás. E um novo ritmo para o dia-a-dia construído do zero. Sabe tudo que você aprendeu sobre trabalho? Pois é, agora não vai mais ser assim.
Portanto, tudo volta para o início desse texto com a frase do meu professor: “O barro tem que te moldar para que você possa moldar o barro”. É como se fosse um merecimento, uma permissão necessária para que o barro se molde como desejado e consiga o virar realidade. Com a condição de: eu me manter concentrada.
Claro que não é tão fácil como parece. Me desconectar e concentrar são hábitos do cotidiano que fez parte de mim por tantos anos.
Eu sou paulistana, mãe e fui publicitária a vida toda… E ainda tenho muito o que aprender para chegar à serenidade. É um desafio, porém mais um no meio de tantos.

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